14 janeiro 2011

Quando acordei

Marcavam três horas por suposição e o cigarro queimava sozinho quando regressei às imagens da cozinha. Abri os olhos e pesou-me cada pestana ao levantar. As formas habituais integravam-me lentamente no espaço que me acolhe em tempos críticos. Com a dificuldade que o cansaço estima, associei elementos recentes, narrativos de uma noite de trabalho árduo, na cozinha. As partículas da única borracha que existe nesta casa, de duas pessoas e uma espécie de, forravam o tampo da mesa e o chão. Cinzeiro a transbordar, infinitos papeizinhos azuis e bordos e outros puros e brancos coloriam a ambiência pesada que me fez doer as costas. Dou conta do meu corpo caído sobre a cadeira de plástico, de pernas esticadas e peso mole. Sem ainda ter mexido um milímetro das suas partes, inspiro como se inspirasse vontade. A cozinha apresenta-me uma quantidade de cheiros remexidos, cheira mal. Tomo consciência do frio que me envolve. O desconforto torna-se óbvio quando um formigueiro agitado adormece o meu pé e tornozelos direitos. Invande-me o desejo profundo de adormecer num sofá esta noite.
Algo me convida a rodar a cabeça para o lado esquerdo. As luzes que vislumbram a noite enublada conferem-lhe um mistério sinistro. O silêncio prolonga-se enquanto conto estórias sobre ela a mim mesma, como se ouvisse também com atenção. A linha trémula que separou a fantasia do realidade quebra-se ao fim de longos minutos que tentaram afastar-me da cozinha. As estórias dão lugar a memórias e a saudade afogou-me. Beleza traiçoeira, a do nevoeiro lisboeta.
Encolho as pernas e levanto-me. O barulho do arrastar da cadeira expulsa-me da cozinha de uma vez. A meio caminho, no corredor, noto que o meu corpo caminha sem eu saber como. Faço um compasso de espera até ele me deixar decidir o seu destino e recupero da tontura. Dirijo-me ao quarto e transporto a toalha de banho ainda húmida até à segunda divisão partilhada nesta casa. Deparo-me com o espelho observador e fito-o. Perco alguns segundos a tentar classificar o mau aspecto mas ligo a torneira da àgua quente, que me obriga a virar-lhe costas, como fuga à sua conclusão. A àgua ferve e o vapor adensa-se, a cortina rosa com folhos perturba a minha tentativa de relaxamento. Sinto-me quente. Ao sair, evito com destreza o espelho. Caio na cama. Adormeço e sonho com os meus pais.

2 comentários:

Gabriela Lacerda disse...

Não te deixes morrer, por cadeiras, de cansaço:)
uma inspiração divina, gosto cada vez do que esreves!
Beijo

Valentim disse...

Finalmente encontrei-te... :D Já andava á tua procura há algum tempo. Sabia que tinhas casa nestas vidas, mas não te encontrava... :)
Gostei muito do teu lar. As mobílias, os sofás e as carpetes são muito interessantes, isto, claro, para não falar nos candeeiros e bibelots que são lindos!!!

Como estás rapariga? Tem corrido tudo bem? Tenho saudades das nossas 2ªs feiras a bater texto ora em minha casa, ora em casa do menano, sempre na galhofa... xD Aparece por estas bandas e fala com a gente para irmos tomar um café ou beber um copo, moça.

Beijo GRANDE e tudo de bom! :)

Prometo passar por cá assiduamente.

sobre quem?

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