03 outubro 2008

- Não tem saudades?

- De quê?

- Do que nos unia, quando eram mais que memórias. Agora, a unica coisa que nos pode unir está a afundar-se no tempo. De tal forma que depressa me esquecerei dos traços do seu rosto, contrariando o presente que me relembra a cada instante o seu corpo ao pormenor. Devem bastar dois anos para me esquecer de tudo de si, de que sois ou fostes ou.. Não tem saudades?

- De quê?

- De mim, de tudo o que fui consigo. De tudo o que fui e continuarei a ser quanto mais tempo quiserdes. Que já nao sou agora, mas que serei e voltarei a ser.. se assim o desejardes. Do amor que me ligou a si, do amor que me deu. Não tem saudades?

- Mas.. de quê?

- Do que vivemos e do que podemos ainda viver! Nao tem saudades?

- Saudades do futuro?

- Do nosso futuro, do nosso passado, de tudo menos do presente. De tudo o que foi e será nosso. Deixa que este prensente se prolongue sem sentir o mínimo de saudade?

- Saudade de quê?

- Dos olhos, das bocas, dos dentes, dos narizes, das testas, dos queixos, da sua barba, dos nossos pescoços, dos pulsos, das mãos, dos dedos, dos braços abraçados, do peito, do meu peito, dos umbigos, da intimidade, das pernas, dos pelos, dos pés, das unhas, dos tornozelos, do joelhos, do rabo, das costas, dos beijos, das palavras, das carícias, do nosso amor, de tudo o que foi (e será) nosso!

- Saudades disso?

- Disso e de muito mais que todas as palavras no Mundo.

- Não.

- Não? Como não?

- Tenho saudades tuas.

- Foi o que perguntei.

- Perguntaste-me se tinha saudades nossas.

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